Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Nota: 7,5/10
Maternidade e saúde mental são temas que o cinema tem explorado com uma coragem crescente, fugindo da romantização excessiva para encarar o cansaço e o isolamento. Ao assistir a este longa, é inevitável traçar um paralelo com Tully, filme de 2018 que também mergulha no esgotamento materno. No entanto, enquanto Tully utiliza uma reviravolta narrativa para explicar o estado psicológico de sua protagonista, este projeto opta por um mergulho mais subjetivo e visceral na psique feminina, removendo qualquer filtro de conforto para o espectador.
Produzido pela A24, produtora famosa por ser a casa de obras originais e criativas, a trama acompanha a jornada de uma mãe que, sufocada pelas demandas incessantes do cuidado e pela perda de sua identidade individual, começa a transitar em uma linha tênue entre a realidade e o colapso emocional. Rose Byrne, que recebeu uma merecida indicação ao Oscar por este papel, entrega uma performance magistral. Ela consegue transmitir, muitas vezes apenas pelo olhar ou pelo tique nervoso de suas mãos, o peso de uma rotina que anula o "eu" em prol do "outro". É uma atuação que ancora o filme mesmo nos momentos em que o roteiro flerta com o surrealismo.
O diferencial aqui é como a direção aprofunda o caos interno da personagem. Não se trata apenas de noites mal dormidas, mas de uma desintegração da percepção. O título, embora carregue um tom que beira o cômico agressivo, reflete perfeitamente a frustração represada de quem se sente imobilizada pelas próprias circunstâncias. A obra não tem medo de ser desconfortável e, ao contrário de outros dramas do gênero, evita soluções fáceis ou redenções açucaradas.
Embora o ritmo possa parecer arrastado para alguns, essa lentidão é proposital para simular a sensação de tempo suspenso que muitas vezes acompanha a depressão pós-parto ou o esgotamento severo. É um filme necessário, que utiliza o talento de Rose Byrne para dar voz e corpo a sentimentos que a sociedade, por vezes, prefere manter em silêncio.
If I Had Legs I'd Kick You, 2024. Duração: 1h 32min. Classificação: 16 anos. Dirigido por Mary Bronstein, com Rose Byrne, Bobby Cannavale e A$AP Rocky.

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